segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Cão, sem sombra de dúvidas.

Meu nome é Orpheu
e eu sou um cachorro!
(Agora vocês ficam na dúvida se é no sentido literal ou figurado).
Na poesia tudo é possível.
Um cachorro como eu, falar poesia.
Um cachorro como eu latir
e vocês entenderem.
(E vocês dizem: cachorro no sentido figurado)
Claro, porque vocês só podem ser cachorros - não dizendo que são -
no sentido figurado.
pois vocês não estão na poesia.
Aliás, não na condição de eu-líricos, essas coisas.
Vocês nada mais são que ouvintes, que, claro, fazem parte, indiretamente, da poesia.
Ou seja, se não houvesse vocês pra quem eu iria falar?
Até um cachorro quando late, late pra alguém.

Mas como eu dizia, sou um cachorro, um cão mesmo, animal, focinho, pulga.
E me chamo Orpheu.
Estou na poesia, pois alguém teve a brilhante idéia de dar voz a um cachorro.
Obviamente não é primeira vez que isso acontece, vejam tv, acontece a toda hora.
Mas na verdade não sou um cachorro comum.
Sou um cachorro recusado de uma sombra de uma poesia.
Eu era uma sompra apenas, de um homem.
"Um homem com sombra de cachorro que sonhava ter sombra de cavalo".
Um dia, contava a poesia, ele (o homem) aprisionou a sombra num canil.
No caso, eu era a sombra.
Ele, enquanto eu ladrava, irritado pra cachorro, galopava com sua alma de cavalo.
Daí quando ninguém prestava atenção, eu fugi, porque é dos cães fugir.
E como eu era uma sombra de cachorro rejeitada de uma poesia, na poesia fiquei.
É claro que eu, enquanto cão, só poderia latir.
Mas como percebem, eu falo a língua de vocês e claro não foi minha idéia falar-vos.

Mas vocês se perguntam o seguinte: que diabos um cão falante, sombra de um homem que queria ter sombra de cavalo, está fazendo aqui, querendo a nossa atenção?
E, como eu já falei, sou um cachorro animal mesmo. Se vocês conhecem os cães normais, sabem o que eles querem: fazer festa!
Vim sim participar da festa da poesia, pois nasci nela e dela e agora virei poeta pra cachorro. Cachorro mesmo, como qualquer outro.
E enquanto poeta e cachorro, vim unir-me a vocês, meus irmãos, meus iguais, cães, lobisomens que somos, na lua cheia.
É festa dos corpos e da alma.

Uivemos!

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