terça-feira, 4 de novembro de 2008

A confluência da translação

Porque és a maior das estações,
o invólucro das estações,

És meu gelo, meu calor.
Minha flor, despida flor.

Nunca foste nenhum canônico inverno.
Nem foste para mim previsão.

Foste sempre a singular inexatidão
das sensações. Nunca foste um só dia
o que diz a meteorologia
a calmaria, o furacão.

Foste sempre a mais bela
indecisão das minhas roupas
a indecisão do guarda-chuva
a indecisão da própria chuva.

A mistura das minhas cores.
A andorinha sem decoro
quando não viu o seu verão.

A folha que desistiu de cair,
por não saber se era outono.

O rio que nem secou nem inundou.
O jardim que floresce eternamente,
na dúvida da primavera.

Porque és a maior das estações
a inevitável travessia
a inextinguível travessia
a imprevisível tempestade
de que eu preciso me encharcar.

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