segunda-feira, 19 de maio de 2008

A mulher noturna

Descendo da lotação,
oxigenados cabelos
vendendo desejos
com balas nas mãos,
trocados no bolso
e nos lábios o veneno,
se vendo nos espelhos
dos carros do calçadão.

Fugindo da fumaça
impregnando no corpo
perfumes urbanos,
ufanos adornos
e nos karaokês da vida
falsas reais paixões,
tão desiludida
nas feridas recordações.

No corpo os trapos
no olhar os farrapos,
no andar a passarela
que figura tão bela,
quão bela que era.

Noturna figura,
não refletida na lua
mas reflexo da luta,
no sorriso a coragem
que lhe fazia falta
nos olhos uma imagem
nem assim tão bela,
mas tão familiar.

Tão vulgar na calçada,
em seus peito não havia nada,
em suas coxas não havia nada,
em seus dedos ainda marcas
sob os pés a noite,
sob a pele pinturas
sob a pele disfarces
tão vulneráveis,

No corpo trapos
no olhar os farrapos,
no andar a passarela
que figura tão bela,
quão bela que era.

Fortuna figura.
Por fora beijos,
e dentro desejos
e infernos tangentes,
Na boca o gozo
dos mais sujos produtos
nas mãos o pau da bandeira
de todas as manhãs.

Na raiz da existência
as escadas das ruas
mais sujas e impuras
tão camuflada, figura
que era, a bela.

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